sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O sono dos anjos

Dorme em minha cama um anjo torto. Eu a contemplo em toda a minha madrugada. Na estrada da vida isto é, com certeza, uma surpresa. Eu me calo para não espantar seu lindo sono. No abandono de tudo eu a contemplo, com medo de que ela võe para o céu de estrelas. Eu a descrevo em absoluta e total contemplação, tentando desvendar-lhe os seus segredos. Mas não há segredos para os anjos. Eu a contemplo em sua face. Acaricio os seus cabelos, toco em suas roupas. Sou tentado a beijar sua boca, e um fogo intenso se derrama sobre o leito. Eu retrocedo, que um anjo tem lá suas artimanhas.

Qual é o sexo dos anjos? Tocá-la eu não me atrevo, não enquanto é bela a madrugada. Ela dorme, indiferente a mim e aos meus receios. Ao tempo, indiferente. Indiferente a noite que ela guarda. Será ela o meu anjo da guarda? Cansada está por certo esta mocinha, mas como saber? Tocá-la eu não me atrevo, não enquanto é bela a madrugada.

Ela dorme em minha cama feito um anjo. Eu sou um poeta louco, insone e sonhador.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Noturno

Escuro. Eu nada vejo. Apedrejo um véu de sereno e madrugada. Uma lágrima escorre dos meus olhos, e eu a percebo. Eu a seco, sinto o sal da sua mágoa, e sigo em frente. Digo para quem a entende que eu errei, e reconheço. É difícil reconhecer um erro, mas me é digno. Eu glorifico o meu pecado e me liberto. Ainda é escuro, e eu não te vejo. A luz é algo que vampiros não suportam, e eu trago alho, cruzes e uma bala de prata em meus pertences.

Escuro. Eu escuto o silêncio e te procuro. A tua tristeza é esta mágoa que eu causei. Só eu entendo o que causei. Mas eu compreendo que te quero como a um queijo suiço. Eu sou um rato entorpecido que não consegue carregar o que ganhou da vida, e sempre volto ao calabouço dos esgotos. Eu te venero. Velo o teu sono a noite inteira. No escuro da noite eu te procuro, mas tu dormes, longe, numa casa antiga, numa cama larga e solitária, esvaziada por minhas infiéis diossincrassias.

Noturno. Eu me transmudo. Sou um lobo solitário uviando para a lua. Tu choras - nua - ferida pela ausência das palavras. Eu me torturo. Escrevo versos duros num poema sem sentido e compaixão, e o amor eu já não sei simplificar. Talvez eu já não saiba mais amar.

Eu ainda te procuro.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Quase setembro

Se reflete no espelho da lagoa o meu olhar. Eu vejo o céu por meus olhos, mesmo no campo, em meio a uma noite enluarada. A estrada é uma cruzada longa para quem é um andante, e não termina onde descansa o horizonte. A fonte do olhar é mais do que a água, é a alma do campo que se desencilha de mim e toma forma. A noite é um espelho de estrelas, enluarada de poncho e de geada. A lagoa reflete o meu olhar, e eu me vejo nela. Solfejos de prata e cordas de fina seda e algodão. Eu compreendo a razão de ser assim, meio louco e milongueiro, um pouco de payador e contrário aos governos, pernas de vento e mãos de laçador. Eu me vejo enfim, e me entendo diante do momento mágico do silêncio, de onde nasce a poesia e a minha inspiração.

Nada me falta. Tudo o que preciso eu encontro aqui, neste meu chão sulino. Sou paisano nascido no garrão do continente, entre fronteiros e pampeanos, índios, negros, brancos e araganos. Eu sou parte do campo e da terra, da seiva que encerra três séculos de fronteiras, mescla de pampa e de querência, de cidades e de estâncias. Eu me vejo. No espelho da lagoa descansam os meus segredos, mas nesta noite de estrelas madrugueiras eu já não durmo mais. E num verso assim já bem nos disse Aureliano.

O meu olhar afunda nas águas. A lagoa reflete a minha alma, e como uma cigarra eu canto os seus encantos. Um tempo de bonança vem surgindo, numa carreta a noite se afasta e um novo dia se aprochega. Eu o espero, madrugador e cevador, diante um fogo de chão acesso em brasas de pau ferro. O tempo anuncia setembro, e eu sinto florir em meu peito milhões de anseios farroupilhas.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A espada do destino

Enquanto os cães ladram, a caravana passa. Emprestada é a espada que eu empunho, e com ela eu afio os meus apreços. Desprezo o lixo da hipocrisia e liberto da prisão pássaros presos. No dia do juízo eu me defendo, mas não para justificar-me de onde errei. Eu pago por mim e os meus defeitos, por meus desejos traiçoeiros. Eu recomeço. A vida é um atropelo e poucos são os caminhos que me absorvem. Escuto rumores e palavras em choque, pelas costas, nas sombras. Mas eu não tive medo de seguir os meus caminhos, então não fale mais de mim. Segue o teu destino. A espada que eu empunho é emprestada, e eu não a uso para justificar onde eu errei. Eu recomeço.

Eu só defendo o que quero. Não me entendas mal, afinal somos poetas. No samba das canções que nos inquietam está o paraíso, e eu não preciso de um rival, mas de um amigo. Eu não compartilho e nem divido o teu espaço, ele é somente teu. No coração de uma mulher há espaços para amigos e amantes, para loucos e confidentes, mas também para maçãs e serpentes. Somos iguais, muito embora diferentes, pois amamos o mesmo coração. Eu não escreverei outra canção igual a esta. A festa acaba aqui contra os meus versos, e o meu silêncio será a tua paz ou o teu ressentimento. Mas não te afastes. Deixa a coragem e a vertigem se pesarem. Deixa de lado o orgulho besta que sempre nos empresta. O que é certo? O que é errado? Somente a poesia é o que interessa.

Chegará o dia em que tudo vai estar posto e encerrado, e seremos apenas lembranças esquecidas num retrato. E nada mais.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Partilhamento

Estou preciso. Meu alvo foi atingido a contento, e eu me contento com o pouco que me cerca: uma cama usada de casal, dois travesseiros de astronauta, um quarto em semi-brilho, duas lâmpadas econômicas de duzentos watts, um cusco da raça pequinês, fiel e companheiro. Eis o que me toca na partilha dos anos que se foram nesta cachoeira que tragou barba, alma e cabelos. Estou no centro, ponteiros acertados, esperando o bonde do destino me levar. Vou embarcar com o pé direito, pé no estribo, bem montado e de à cavalo. Cavalo de ferro que bebe vapor e carvão. Cavalo e vagão de passageiros.

Estou exato. Incisivo. Me permito ver na janela jovens e donzelas saltitantes, colegiais e serviçais em desvario. Sou um rio no tempo. Me contenho para não me consumir em devaneios. Estou ad nuto, absorto em meus novos sonhos e objetivos, obstinado por seus caminhos passageiros. Sou o gelo dos invernos e a manhã dos calendários. O tempo é o meu canário belga cantador. Persigo um novo infinito além da dor dos mares que me arrastam em correntes marinhas falciformes. Sou um cruzador de caminhos, um relógio suiço acertado em seus ponteiros. Eu não estou parado. Eu estou preciso. Estou exato.

Eu caminho pleno na tua direção.

 

sábado, 25 de agosto de 2012

Para não dizer do amor

 Eu ando para frente. Acelero. Me desgoverno do destino e não tenho medo de fazer valer minhas vontades. Sou uma imensidade e fortaleza. Sou a ferramenta da minha construção. Sou a obra prima da minha criação. Eu escrevo sobre mim agora, mas para ti. Eu escrevo para ti para que entendas o que sobrou de mim, com o pouco que fiquei o com quem estou. Poucos foram os que ficaram comigo, mas tu ficou. Poucos foram os que não me condenaram, mas tu, antes de todos, me perdoou sem mesmo condenar. É um mistério te falar assim, mas assim caminha a humanidade.

Muitos quiseram te tomar de mim, e eu fui um deles. Muitos quiseram te afastar de mim, e eu fui o primeiro a te dizer: sai! Eu não sou um santo. Mas todos, inclusive eu, não viram os teus olhos de mulher. Bem me quer, mal me quer. Desfolhei um milhão de flores até compreender o invisível, o indivisível, e agora eu simplesmente te quero. E eu não sei o porquê, mas já não me interessa. Tua fresa é uma prensa que amassa o meu coração e extrai dele o que de bom sobrou, e eu te dou somente o que eu posso te ofertar: o sumo do meu ser. No amanhecer eu vejo as tuas asas sobre as costas, e nada mais é preciso para que eu te possa compreender. Tu és o que sempre foi, o que sempre serás. Nada no mundo será mais intenso do que o verde indefinível do teu olhar. E eu vou por eles navegar.

Amar é um verbo sem timão, e talvez por isso eu pouco o use. Mas nesta hora de extrema unção eu vou te dizer o que tu sempre quis ouvir: o amor está além do verbo, além do olhar. Ele está no horizonte dos espelhos, além do mar. Eu sou o que sempre fui e o que sempre serei. Tu és o que sempre foi e o que sempre serás. E nada no mundo será mais intenso do que o verde indivisível do teu olhar.

E eu vou por eles agora te amar. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Como eu te vejo

Te defino assim: feito um jardim. Nele há jasmins e narcizeiros, camélias e jacintos, roseiras, girassóis, tulipas e frésias, lírios e outras tantas flores que ninguém conheçe. Nem bem amanhece e tu já mostra a tua beleza, mesmo desregrada, desarrumada, mesmo com o olhar sonolento e embolorado. Pecado nos olhos e na língua, formigas cortadeiras carregando o fado de uma noite mal dormida, indormida nas aquarelas furta-cores da tua alma.

Foi assim que eu te ví: uma colméia de cores, um arco-íris multicor. Em minha íris eu fotografo a tua imagem, e recapitulo em pedaços o que tu exibe em preto e branco. Um mistério para mim em muitos campos, mas de misteriosos encantos. Um manto negro de alma em luz enegrecida pela fé e que não sabe o seu caminho, mas que precisa de carinho e orientação. Um barco sem timão levado ao sabor do vento no rumo da arrebentação. Foi bem assim que eu te ví.

Agora não. Hoje eu te vejo em tua real coloração, e entendo a dimensão de quem tu és. Atrás de ti há o teu viés, mas por vir há todo o tempo que nos resta. Nada interessa à estrada do destino que tramou o nosso encontro, apenas o que pensamos um do outro. Não interessa o que eu ví quando te olhei, apenas o que eu agora vejo: um jardim. Nele há camélias e jasmins, tulípas e narcizeiros. E uma flor que apenas eu em meu amor conheço.

Hoje eu te vejo com os olhos do coração.