domingo, 22 de janeiro de 2017

OS CAMINHOS DA INFÂNCIA

Mergulhar no tempo para encontrar a estrada, trilhar os caminhos do coração para encontrar a alma, buscar e purificar a aura nas águas da infância. Perder-se aqui é encontrar-se, navegar por lembranças antigas e esquecidas, assustar-se e rir quando se encontrar com uma. A vida é uma estrada longa que caminha em direção ao infinito e nós, nós somos simplesmente peregrinos ou caminheiros.

Mergulhar no tempo para quebrar o espelho, encontrar a criança que um dia fomos. Tão distante é o tempo dos dias que vivemos, tão diferente é o nosso mundo de hoje que, se pararmos e pensarmos, tudo parece ter sido uma ilusão. O que foi dito, o que não se disse, os ecos do passado, nada separa à fonte daquele que tem sede. Apenas uma ponte da memória permanece, mas é por ela que caminho em direção à este retrato.


Eu lembro-me de uma macieira antiga, macia e orvalhada em frente à casa; De um tonel de metal em que brincávamos, de um galpão grande e de centenas de sacos de arroz empilhados até o teto. Lembro de um parreiral e de sua sombra, e lembro do poço, do tabuleiro riscado no chão com um pedaço de taquara onde jogávamos sapata e amarelinha, e de uma boneca que batia palmas e que era o máximo da tecnologia que tivemos. Mas tudo em fragmentos, pois os caminhos da infância não se revelam perfeitos.

Eu me lembro de tão pouca coisa deste tempo, tão pouca, mas a simples existência de lembranças de que não lembro é que me trazem a certeza do quanto foram bons àqueles dias. Dias de infância. Dias de maturar a vida. Tempos de brincar e de ser feliz. Eu olho a fotografia demudada de minha casa e alguma coisa em mim se resplandece, e sinto que a qualquer momento tu vais sair comigo de mãos dadas, caixa de fósforos na mão, para incendiarmos algumas palheiras...

Os caminhos da infância não se perdem. Eles ficam gravados em nossas almas.

Feliz aniversário.

Feliz aniversário para a minha prima querida do coração.


sábado, 30 de abril de 2016

AS AGRURAS DO CORAÇÃO

O sol residual de abril se apresenta neste outono. Sem dono e sem descanso ele queima gás hélio ao transformará-lo em hidrogênio, em propulsonica usina termoatômico/nuclear. Mas o calor que chega a terra é reconfortante, confortável. E neste outono em que eu me encontro eu me sinto acolhido, tal qual a um filho que se reconforta junto ao pai.



Eu falo do sol como pretexto, pois estou a interpretar meu coração. O que ele diz, e eu bem sei, nem sempre é o que ele sente. Na vertente dos versos onde eu busco a poesia dos meus dias é ele o guia condutor dos meus caminhos. No arrebol de meus redemoinhos é ele quem determina o som. O improviso é o seu tom.

Mas o destino que me trouxe este outono trouxe com ele também a força da estação, e a razão dos ventos, o frio, hão de consumir este sol residual que me faz bem. Eu então contemplo as folhas mortas pelo chão e compreendo que devo encerrar e iniciar um novo ciclo. Só o coração compreende o que eu já não consigo conjugar.

Eu encerro este poema enquanto ainda existe a luz.


(Por Alex Brondani, 30/04/2016)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

O HOTEL PARIS

Eu estive hospedado no Hotel Paris, em Rio Grande. Estive numa máquina do tempo. Tropecei nele por acaso, o acaso de um final de uma tarde turística familiar, de onde tudo o que levei foram as malas do tempo. Logo na chegada eu fui envolvido, seduzido, absorvido pela sua beleza e singularidade, pelo seu paradigma. Nada que lembre as construções modernas com as suas tecnologias quase que constantes, nada de sofisticação ou serviços cinco estrelas, nada de requinte, mas sim o ar de uma aristocracia decaída, de alguém que se perdeu pelo caminho, o pueril revés de uma ampulheta do tempo.


As paredes, as escadarias de madeira, os lustres, o teto revestido e já apagado, o mármore em xadrez e os pisos de ladrilhos decorados, tudo é um arcabouço influenciado pela mágica decoração arquitetônica de um fiel e provável servidor da corte de Dom Pedro II, o seu hóspede mais ilustre, ou de algum poderoso mercador do porto antigo, frequentador de sua corte, ou talvez um pouco do charme de intelectuais de várias épocas, pintores, artistas, cantores, ou mesmo dos simples viajantes, marinheiros, meretrizes, donzelas, senhoras e senhoritas, acompanhadas de sisudos pais e maridos, tudo é harmonicamente combinado e refinado. Eu sinto um pouco de todos os que por ali passaram, e no seu tempo, sentiram-se assim como eu me sinto agora.



Persiste em mim uma inquietude, esta ansiedade de querer saber um pouco mais de sua história, do dia a dia daqueles que ao longo dos séculos frequentaram o lugar. Eu queria escutar os seus cochichos, saber dos segredos sussurrados no antigo salão de bailes, ouvir o som do rangir das carruagens ao partir, saborear os seus sotaques. Até mesmo os mais ardentes segredos me são caros, àqueles trocados no silêncio das alcovas de seus quartos, por detrás de suas imensas portas espanholas. Resta em mim apenas o que o tempo me relega: somente os sinais de suas vidas. Eu deslizo as mãos pelas paredes e escuto os risos cristalinos que ali ainda estão guardados. 


Eu sou um viajante do tempo, mergulhado no universo de suas molduras, tentando completar as lacunas do meu verdadeiro ser. Talvez eu já tenha estado ali, pois tudo me é muito familiar. A lagoa, o mar, o sal encravado nas ferrugens de cada peça antiga e resgatada. Eu observo, respiro e sinto o cheiro, e desvendo a história de cada objeto singular que ali ficou. Na soalheira, diante da fonte alva que guarda as águas do tempo recicladas eu vislumbro a alma de um hotel que se perdeu no tempo.

Eu estive hospedado no Hotel Paris. Eu sinto que um pouco de mim ficou por lá.


(Alex Brondani, em 07/02/2016)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

CHAMAMENTO

Eu tenho sede. A minha garganta sente o pó da estrada que me chama, e eu estou como um pé de vento por partir. No ir e vir dos caminhos eu sou a alma fiel do meu coração, e não há razão que me impeça de impetrar esta jornada. Eu avanço com o ar da conquista, intrépido, imponente. Um batalhão que marcha para o seu destino, com o vento na cara e uma lança na mão. Eu estava com saudades.


Eu escuto o chamado da estrada, e o meu coração responde alegre, sorridente. Para frente e sem destino este é o meu caminho, o meu jeito de navegar nas circunstâncias. Agora além daquela que me segue eu tenho um novo companheiro, aventureiro como eu, de olhos vivos e fixos no horizonte. Além da fonte clara está o meu cântaro, seiva do andarilho, bebida que contagia e me traz a adrenalina. Eu não estou mais só.


Caminhamos os três para o litoral de um oceano azul e fervilhante, esculpidor de terra e tempestades. Na bagagem a liberdade de ser livre, de estar vivo, de ser vibrante como o menino que finalmente encontra o mar. É difícil deixar de ouvir o seu chamado, sentir o cheiro da terra que se encharca, encher de ar os pulmões embolorados. Eu outra vez estou na estrada.

Se um dia ainda nesta vida mensageira eu puder escolher qual dimensão seguir, ainda assim eu serei este louco e destemido caminheiro, viageiro, andante e desbravador dos meus caminhos. Eu serei um pirata em caravelas loucas manobrando ao barlavento, na fiel conduta do destino. Eu serei o meu próprio peregrino.

Escuta: a estrada me chama. Já estou indo...\\



( Alex Brondani, em 02/02/ 2016)







segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

OS OLHOS DO TIGRE

Os olhos do Tigre são olhos de Lince, maturados, guardadores da espera. São olhos de cancela, espertos e escondidos, ligeiros. Eu descubro nos olhos do tigre a minha redoma, sanga funda e corredeira, amor sutil e iluminado. Considero o tigre um ser alado, mas desprovido de asas. Suas patas são o fiel da minha balança.

Os olhos do tigre são os olhos da alma, transpassados e  espessos, insurgentes. Cobertos de trevos e de esmeraldas, são olhos que estudam a jornada, o golpe fatal, o firmamento. No compasso do tempo os seus olhos me fitam, me marejam, me desejam. Eu compreendo a razão do ser e do existir, eu entendo a razão do seu olhar.

Os olhos do tigre não sabem amar. Para eles o amor é um instinto, assassínio da sobrevivência, transparência transcendental da natureza, simples efeito evolutivo. Eu não brinco com os olhos do tigre, não descanso à sua espreita, nem considero nada além da sua essência.  A finitude do tempo é a minha crença.

Os olhos do tigre são os olhos do destino.           



(Alex Brondani, em 18/12/2015)

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

CONSIDERAÇÕES SOBRE MARTE

Descobriram água em Marte. Nas luas de saturno há a evidência de sua existência, e só na Via Láctea são cem bilhões de estrelas. O conhecimento do homem avança a passos inimagináveis, inolvidavelmente e, às vezes, quase que imprudente. Eu, no entanto, absorvido no meu mundo e aprisionado pelo tempo, alheio aos preceitos da ciência e da razão, vivo e me enredo a cada dia em uma nova descoberta: meu filho.

Eis a sua imagem: olhos azuis como a cor do time que lhe instigo, àquele do meu coração. Olhos vivos e com a sede do conhecimento humano, voraz devorador de imagens e vertigens, absorto em compreender cada sentido. Compreender o seu mundo é o meu sustento, ensinar-lhe tudo o que sei um desafio. Eu improviso.

                               

Talvez um dia ele possa desvendar este universo que se revela agora, talvez para ele Marte seja o seu assunto mais presente. Para mim, no entanto, é algo quase que transcedental. O meu universo se resume a esfera do meu coração, transpassado pela emoção de ser algo que jamais imaginei. Eu sou como uma sonda exploratória.

Sim, eu tenho plena consciência da ciência, o meu pensamento navega na racionalidade humana, e desde Descartes que a teoria do método molda o meu espírito, mas tudo desmorona quando eu fito os olhos deste novo aventureiro, olhos vivos, azuis como a cor mais púrpura do mar, olhos que fitam para conquistar. Eu me descubro em cada dia em um novo universo.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

A FORÇA DOS SENTIDOS

Está claro para mim o seu sentido, vestido de rendas numa flor de alecrim. Alecrim? Diria apenas que é a necessidade da rima, rimo do poeta, anestesia dos sentidos. Improviso os meus anseios, ressabios e silêncios, todos eles para o meu sustento, mas, agora, eu tremo em minhas próprias bases. Está claro para mim agora o seu sentido: um verbo de silêncios imperfeitos.

Estamos, eu e tu, na reta final de um grande prêmio, Grand- Prix no corrimão da vida, alimentando o tempo e o calculador das horas, cronômetro regressivo de uma arrebentação. A minha aclimatação começa agora, maturação constante de um tonel de vinho antigo, reservado do tempo. Inconstante tem sido o meu tempo, assim como os teus dias. Tu e eu estamos juntos.

Tenho receios, mas quem não os tem? Alguém além de ti ou de mim sabe o que sentimos? O poema talvez, mas além dele mais ninguém. Somos dois andantes que se fizeram três, rios confluentes que se uniram num estuário de estrelas vespertinas, madrugueiros de aurora, caminheiros. Nós somos a rima, a apoteose do poema.


Está claro para mim a força dos sentidos.