terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

CHAMAMENTO

Eu tenho sede. A minha garganta sente o pó da estrada que me chama, e eu estou como um pé de vento por partir. No ir e vir dos caminhos eu sou a alma fiel do meu coração, e não há razão que me impeça de impetrar esta jornada. Eu avanço com o ar da conquista, intrépido, imponente. Um batalhão que marcha para o seu destino, com o vento na cara e uma lança na mão. Eu estava com saudades.


Eu escuto o chamado da estrada, e o meu coração responde alegre, sorridente. Para frente e sem destino este é o meu caminho, o meu jeito de navegar nas circunstâncias. Agora além daquela que me segue eu tenho um novo companheiro, aventureiro como eu, de olhos vivos e fixos no horizonte. Além da fonte clara está o meu cântaro, seiva do andarilho, bebida que contagia e me traz a adrenalina. Eu não estou mais só.


Caminhamos os três para o litoral de um oceano azul e fervilhante, esculpidor de terra e tempestades. Na bagagem a liberdade de ser livre, de estar vivo, de ser vibrante como o menino que finalmente encontra o mar. É difícil deixar de ouvir o seu chamado, sentir o cheiro da terra que se encharca, encher de ar os pulmões embolorados. Eu outra vez estou na estrada.

Se um dia ainda nesta vida mensageira eu puder escolher qual dimensão seguir, ainda assim eu serei este louco e destemido caminheiro, viageiro, andante e desbravador dos meus caminhos. Eu serei um pirata em caravelas loucas manobrando ao barlavento, na fiel conduta do destino. Eu serei o meu próprio peregrino.

Escuta: a estrada me chama. Já estou indo...\\



( Alex Brondani, em 02/02/ 2016)







segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

OS OLHOS DO TIGRE

Os olhos do Tigre são olhos de Lince, maturados, guardadores da espera. São olhos de cancela, espertos e escondidos, ligeiros. Eu descubro nos olhos do tigre a minha redoma, sanga funda e corredeira, amor sutil e iluminado. Considero o tigre um ser alado, mas desprovido de asas. Suas patas são o fiel da minha balança.

Os olhos do tigre são os olhos da alma, transpassados e  espessos, insurgentes. Cobertos de trevos e de esmeraldas, são olhos que estudam a jornada, o golpe fatal, o firmamento. No compasso do tempo os seus olhos me fitam, me marejam, me desejam. Eu compreendo a razão do ser e do existir, eu entendo a razão do seu olhar.

Os olhos do tigre não sabem amar. Para eles o amor é um instinto, assassínio da sobrevivência, transparência transcendental da natureza, simples efeito evolutivo. Eu não brinco com os olhos do tigre, não descanso à sua espreita, nem considero nada além da sua essência.  A finitude do tempo é a minha crença.

Os olhos do tigre são os olhos do destino.           



(Alex Brondani, em 18/12/2015)

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

CONSIDERAÇÕES SOBRE MARTE

Descobriram água em Marte. Nas luas de saturno há a evidência de sua existência, e só na Via Láctea são cem bilhões de estrelas. O conhecimento do homem avança a passos inimagináveis, inolvidavelmente e, às vezes, quase que imprudente. Eu, no entanto, absorvido no meu mundo e aprisionado pelo tempo, alheio aos preceitos da ciência e da razão, vivo e me enredo a cada dia em uma nova descoberta: meu filho.

Eis a sua imagem: olhos azuis como a cor do time que lhe instigo, àquele do meu coração. Olhos vivos e com a sede do conhecimento humano, voraz devorador de imagens e vertigens, absorto em compreender cada sentido. Compreender o seu mundo é o meu sustento, ensinar-lhe tudo o que sei um desafio. Eu improviso.

                               

Talvez um dia ele possa desvendar este universo que se revela agora, talvez para ele Marte seja o seu assunto mais presente. Para mim, no entanto, é algo quase que transcedental. O meu universo se resume a esfera do meu coração, transpassado pela emoção de ser algo que jamais imaginei. Eu sou como uma sonda exploratória.

Sim, eu tenho plena consciência da ciência, o meu pensamento navega na racionalidade humana, e desde Descartes que a teoria do método molda o meu espírito, mas tudo desmorona quando eu fito os olhos deste novo aventureiro, olhos vivos, azuis como a cor mais púrpura do mar, olhos que fitam para conquistar. Eu me descubro em cada dia em um novo universo.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

A FORÇA DOS SENTIDOS

Está claro para mim o seu sentido, vestido de rendas numa flor de alecrim. Alecrim? Diria apenas que é a necessidade da rima, rimo do poeta, anestesia dos sentidos. Improviso os meus anseios, ressabios e silêncios, todos eles para o meu sustento, mas, agora, eu tremo em minhas próprias bases. Está claro para mim agora o seu sentido: um verbo de silêncios imperfeitos.

Estamos, eu e tu, na reta final de um grande prêmio, Grand- Prix no corrimão da vida, alimentando o tempo e o calculador das horas, cronômetro regressivo de uma arrebentação. A minha aclimatação começa agora, maturação constante de um tonel de vinho antigo, reservado do tempo. Inconstante tem sido o meu tempo, assim como os teus dias. Tu e eu estamos juntos.

Tenho receios, mas quem não os tem? Alguém além de ti ou de mim sabe o que sentimos? O poema talvez, mas além dele mais ninguém. Somos dois andantes que se fizeram três, rios confluentes que se uniram num estuário de estrelas vespertinas, madrugueiros de aurora, caminheiros. Nós somos a rima, a apoteose do poema.


Está claro para mim a força dos sentidos. 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

AS RELATIVIZAÇÕES DA RELATIVIDADE


Eu penso na curvatura do espaço-tempo, àquela a quem Einstein bem definiu em sua teoria da relatividade, brilhante lampejo de genialidade, embora até hoje eu não tenha entendido o seu sentido. Mas eu penso, revisito o teorema antigo, uso de todo o recurso intelectual de que disponho, mas fracasso mesmo assim. Einstein era um extra terrestre.

Eu, no entanto, analiso o tempo, a sua equação equânime, o seu sentido de mão única em implacável maestria. Ninguém o contém, ninguém o detém, nada é capaz de fazê-lo retroceder. O tempo é o senhor dos destinos.


Você já se deu conta disso? E enquanto o tempo passa, a vida acontece em todos os lugares, inclusive ao derredor de ti. Então não espere mais, não aguarde a chuva passar para molhar a alma, nem o sol raiar para começar o dia. A ampulheta do tempo está correndo.

Olhe ao seu redor. Reflita. A vida segue o seu fadário sobre o eixo imaginário que criamos para explicar a rotação da terra em torno do sol, mas nem ela explica a natureza humana. E de tudo isso me sobraram poucas coisas para te dizer agora: que o tempo é um teorema estranho, indecifrável; que viver e não desperdiçá-lo é a melhor alternativa que temos para resolvê-lo; e que Einstein era, com toda a certeza, um alienígena.

Você não acredita? O tempo é mesmo um teorema estranho...

terça-feira, 10 de março de 2015

AS MINAS DO CAMAQUÃ

A entrada da mina é obscura, nua, escavada na pedra bruta. Cortada na senda de pás e picaretas, mãos que cavaram fundo, enredo de sonho e de sofreguidão. Chão adentro as galerias se espalham, úmidas, escuras, soturnas e nebulosas. O cobre que as sustenta é a razão desta contenda, odisséia sem heróis, epopéia de um tempo na loucura dos homens.

Eu não estou imune ao seu simbologismo, sinto nas paredes e em meus pés a dor daqueles que aqui estiveram, o ar rarefeito em seus pulmões, o sufocante estágio da memória, o trabalho que aniquila. Eu não mergulho no coração da rocha, desconheço os seus caminhos, apenas me consterno da vida dos que ali estiveram.


Poeira e metal espalhados pelo chão, escoras de madeira, trilhos e ferros retorcidos, esquecidos e jogados pelo tempo imaterial. Como teriam sido os homens deste tempo, estes mineiros? Ingleses de semblante duros, Alemães de pesadas cicatrizes, Belgas desconhecidos e esquecidos, Brasileiros  forjados no rigor desta labuta, todos unidos pelo mesmo Eldorado.

Eu ainda posso ouvir o eco pelas galerias, suas vozes claras e cristalinas, sentir o que sobrou da alma sob a rocha dolorosa, pesada, carregada dos seus sonhos e esperanças. Não, eu não invejo àqueles que aqui estiveram, os que abreviaram suas vidas sob o coração da rocha, sob o cobre que a sustenta, eu apenas reverencio em sua memória.

Eu sinto a alma de cada mineiro sob a rocha.


terça-feira, 3 de março de 2015

CORAÇÃO DE DUAS PÁTRIAS


Estou na estrada. Sob o meu olhar a imensidão de um continente imerso num céu azul, iluminado pelo sol do arco íris. Distâncias espalhadas na paisagem agreste de um país rural, de povo acolhedor e simples, de rebanhos de ovelhas a banir na tarde, de tropas de gado e de tropilhas de cavalos forjados no rigor das estações.

Estou no mundo, em algum lugar entre Salto e Taquarembo, em meio aos contrafortes de uma serrania magnífica que fervilha em vida. Aqui, resiliente de tudo, eu me confronto e me compreendo. Longe de casa eu estou, mas o meu coração sente a segurança e o amor incondicional por esta terra, dizendo-me que não é impossível amar a duas pátrias.



Eu respiro o ar das campinas aclimatado pela relva verde e solitária. Minha alma se emoldura na paisagem verdazul prestes a chegar ao sol. No topo do continente eu diviso a dimensão do que sinto, e na imensidão do que vejo eu aceito o meu destino.

Eu tenho um coração de duas pátrias.