sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A SINGULARIDADE

Mergulho submerso no meu universo, e o contraponto é o verso que se improvisa. Saboreio a vida em cada palavra e o meu coração é uma rima solta jogada ao vento, corda solta de viola, cardíaco batimento. Me assento nas bases de meu pensamento para entender a vida, as suas circunstãncias, o destino de cada um e de cada ser.

Como dizer para quem fica que a dor é apenas um desvario e que é preciso prosseguir, seguir a procissão das águas, mesmo que de inconstante forma? Como explicar para o que ficou que a vida é fruto do imprevisível, da fatalidade mórbida, da inexplicável circunstância do destino? Apenas a fé pode explicar o inexplicável.



Eu escrevo com o coração amortecido, sofrido, embora distante esteja desta singularidade. Ouço os relatos que me chegam e os ecos sussurrados de uma história recriada, recontada, perdida da verdadeira história. Meu pensamento delimita o tempo, contrapõe-se ao silêncio, cala-se ao consolidado fato.

Eu escrevo, mergulhado no meu universo inalterado. O meu verso é apenas um reflexo deste todo episódio fático, mais um dentre tantos nesta vida, apenas este um pouco mais próximo de mim. De tudo o que restou eu entendo que é apenas a fé que nos faz seguir adiante, não a fé da religião, mas a fé da natureza humana.

Independente a tudo, o sol ressurge no horizonte.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A ENCRUZILHADA

Recorrente é a tua inconfiança, circunstância incômoda da tua insensatez. Recorrente é o teu desassossego, referido apego material, desumano insumo, degradante e sufocante estorvo, espólio de um passado irracional. Não há mal que nunca acabe, mas também não há bem que sempre dure, e por deveras vezes eu tenho te proposto. Mas recorrente é o teu estorvo e sufocante o teu estafe, ácido veneno que corrói meu coração.

Nada do que te digo foi em vão, apenas a causa. A natureza da pausa faz de mim um novo ser, incapaz de me perder na escuridão, mas já não seguro a tua mão. O que me une a ti é o fio da perseverança, o DNA da natureza, a firme razão da convicção. Mas nem ela resiste ao paradigma. O que se vê na superfície não reflete o turbilhão que submerge, a força da corrente que confronta a represa.

Apenas uma vez mais é que eu te digo, no improvisado discurso do meu ser: não quero ser para ti o que deixei pra trás, nem escancarar o meu passado negro. Este é o meu derradeiro apelo, apego do que sobrou da minha indagação, irritação extrema, a última gota de um transbordante oceano. Não culpe a mim pelo teu desengano, não sufoque mais a minha natureza.

Aqui reside a encruzilhada do destino.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

RESENHAS

O sol residual brilha nos meus olhos. Manhã translúcida, clara e cristalina, desenho da barra do dia. Minha alegria é a cor da manhã, o despertar da vida, a revoada que se desenha no horizonte.  O sol residual brilha nos meus olhos, e eu estendo o meu olhar para o futuro. 

O mundo em que vivo se transforma, se reforma, toma formas de vida e de sustento. Eu entendo a mudança, aceito, receito um novo paradigma para a minha inconsequência. A essência do meu caminho ganha um outro sentido, um novo objetivo, novos sentimentos. Eu decifro o mundo que se transforma ao meu redor.  Tudo em mim é espera, tudo em mim é alumbramento.

Tu és agora a luz do meu destino.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O RODEIO DAS ALMAS

Eu estivo. Estou lívido, disperso, disfarçado, atrelado às coisas mais comuns do dia a dia, ainda atordoado. Meu coração compassa um marcapasso firme, seguro, revel da condição humana. Nada parece estar fora do lugar, tudo representa a condição comum, e o mundo parece a ilusão de ser igual. Mas nada mais pode ser assim.

Não agora, não mais para mim. Estou me traduzindo, compilando os sentimentos que descubro, sorrindo quando devia chorar, chorando quando devia sorrir, inventando escoras onde eu possa segurar. Meu cais seguro foi lançado ao oceano, onde eu navego em águas turbulentas e desconhecidas. Eu estou me descobrindo em nova condição.

Tu chegastes assim, de sobreaviso. Quando o vimos, tu já estavas ali, quieto e sorrateiro, a espreita de assaltar os nossos sonhos. E, de repente, quando prontos estavam nossos sorrisos, quando ajustados estavam nossos destinos, tu iniciou o sopro da vida, um coração acelerado batendo a 120 batimentos, um turbilhão de sentimentos novos e febris, todos de roldão.

Eu não sei o que dizer desse amor imenso que eu sustento por ti, mas já entendo. Entendo o nó na garganta, a viagem do pensamento nos momentos mais inóspitos, improváveis, todos repousados em ti. Entendo o dia que transformou a minha vida e me fez o homem mais feliz do mundo. Eu entendo, e te espero, e mesmo sem ver-te e conhecer-te eu já te amo com todo o meu amor.

Sejas bem vindo, meu filho.



sexta-feira, 28 de novembro de 2014

QUASARES

Eu sou a estrada do mundo. No fundo e no interior de mim há um sem fim de caminhos e destinos, uns improvisados e alguns pavimentados, outros ainda por trilhar. Eu sou o deserto do mundo. No final das fronteiras de areia vivem os meus sonhos, pirâmides construídas para resistirem ao tempo, ao vento, ao sol. No farol das estrelas eu me destino.

Os meus olhos desenham caminhos. Até onde eu vejo o horizonte eles se alinham e se divisam, afundados no oco do mundo. No fundo dos olhos eu tenho guardada a alma estradeira que me incendeia, a poeira dos caminhos, a roda do destino. O meu mundo roda sobre o eixo de um moinho.


Eu sou a estrada do mundo, imundo, sujo e maltrapilho. Um andarilho que gira em torno de seu próprio eixo, arrocinado pelo fogo da estrela, sob o sol, ao derredor do sol. No rol das ilusões que me guardam eu persisto, resisto, e sigo em frente.

Eu sou a vertente do mundo.


sábado, 22 de novembro de 2014

Poema De amor

Quantico é o meu pensamento. Essência de íons e prótons em desmantelamento, reconstrução em espiral de um orbital desvirtuado, colidido e atrevido. Impedido estive, desterrado em monte extremo, abnegado como àquele que esteve no deserto. O meu verso fervilha em meu  coração e eu não suporto mais a tirania da emoção, da chantagem barata, da casualística indeterminação do ser. Agora eu quero reflorecer.


Nada poderá me impedir. Não lute contra a minha natureza, alie-se se quiser sobreviver. Não tente conter meu pensamento, o impulso de meu descobrimento, nem as coisas naturais que me são puras. Não tente, pois esta é a minha identidade, a minha vertente verdadeira e já tardia: não tentes dominar minha rebeldia.



Este é o meu derradeiro aviso, o improviso de um verbo intransitivo, a imposição do abismo de onde brota toda a minha inquietação. Não mergulhes neste mundo querida, pois ali reside a minha ferida e nele nem você é convidada. Pois eu sou como o trem desgovernado posto no eixo sobre um trilho de gelo. Então não me faças derreter.

Porque quântico é o meu pensamento, essência de colisões e contratempos, itinerário vivo das minhas indagações. Eu estive Impedido em monte extremo, soterrado, posto em baixo de pesado fardo, mas agora estou aqui. Então olhes para mim: o meu verso fervilha no meu peito, eu refloreço pelo teu veneno, e tu és ainda a dona do meu coração.

Mas eu não suporto a tirania da emoção.


sexta-feira, 4 de julho de 2014

ÁGUAS CORREDEIRAS

A barragem está rompida. As águas correm livres pela encosta, procurando o mar. Chove desde três dias, crescente e espuma nos rios, galhos, amarilhos, a vida louca na corrente em assovio. O rio que escapou da caixa beija a várzea inundada e barranqueira, leva o meu sonho, lava a minha alma. A estrada agora é uma balsa na corrente em desvario.

As águas correm, insultam a barragem e rumam ao mar. Quem é capaz de lhes impor? O torpor do coração lança-se à correria das nascentes, transbordante, inconstante, rolando serra abaixo. Eu tento segurar o golpe absurdo das águas, o peso do mundo, a massacrante pressão da minha brutal incongruência.

A barragem está rompida, desde a nascente. E como se faz o rio voltar ao leito uma vez desfeita a inundação? O leito será outro, outros serão os peixes e os pesqueiros, outras vidas terão nascido, outros destinos escritos. Feneço diante do holocausto dos meus próprios pés, recobertos pelo barro seco, areado, arrancado das encostas da barranca.

As águas correm enquanto eu estou parado, abismado, reflexivo. Eu vejo o futuro e o que plantei florescer num chão de vidro, enquanto pratico velhos hábitos, velhos erros, o infiel e o involuntário ser. Tento entender os meus impulsos e o que fazer de mim, e assim, concertar o espelho do meu interior.

Eu sigo em frente. O mundo queima numa fogueira de vaidades.