sábado, 9 de novembro de 2013

Breve Consideração Sobre uma Tarde de Chuva

Estou seduzido pela chuva. Da janela eu vejo a luta das gotas pesadas golpeando o assoalho do asfalto, acumulando águas, escorrendo ladeira abaixo. A chuva lava a avenida, entope os bueiros, refaz o seu calvário. Vai transbordar os rios e os banhados, afogar os ratos e enrodilhar os campos de trevos e de brejos. O rumor do horizonte relampeja em meus versos.

Estou embriagado pela chuva. Minha alma transmuda com o cheiro de terra e o abafamento do ar. Quasar de cores disformes, sentimento sutil de anunciação, quermesse de vida que desalinha o coração. O som no telhado goteia os meus sentidos, e eu me sinto o menino como um dia fui. Àquele que se banhava nas calçadas, que nada temia do horizonte numa tarde de chuva.

Que me importam os trovões da tempestade, se eu estou encantado! A chuva que cai é um bálsamo e me convida à vida. A chuva que se atira ao chão mostra-me como deve ser levado à termo o coração: de roldão, pois a vida é um rio que corre em profusão. Eu vou abrir o portão de minha alma:  um menino de gravatas quer se banhar nas águas do destino.

Vem comigo!

     

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

O Silêncio da Janela Abandonada

O que se esconde por detrás do silêncio da janela abandonada? O que se oculta do outro lado da face de suas vidraças? Um codinome onipresente ou simplesmente uma canção cigana? Eu acordei nesta manhã assim, repleto de indagações insanas. Sensações desvirtuais derivadas de um estado de ânimo incontrolável, revel de minhas reais necessidades. Eu estou enigmático pela janela fechada de uma casa abandonada.
 
A  paisagem que a cerca me observa. Eu bebo na sede de encontrar a calmaria, mas transpiro em demasia. O que se esconde por detrás desta janela? Que vidas e mazelas debruçaram-se aqui antes de mim? Sobre o desbotado azul de arestas portuguesas, alguém ali um dia já pousou o seu olhar. Mas, agora, a janela  apenas é a marca de um tempo que passou.
 
Tu me ouvistes? O tempo passa. Nada me afasta do olhar os devaneios, e a poesia do momento me redemunhou. Eu só penso no que há por trás desta janela abandonada.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

LUMINARES DE OUTUBRO

Abro este manuscrito sob os luminares de Outubro. Mês lúdico, do peso, da balança e do escorpião. Meu coração segue o farol da tempestade e eu tenho, enfim, uma rota definida. A rocha incontida segura o peso das ondas, e minha alma navega agora em mares conhecidos e geografizados.

Os luminares de outubro me apontam o rumo, e eu sei onde estarei no dia do amanhã. Dos contrafortes de uma ilha distante no oceano azul eu me ponho a navegar, por sobre as ondas de um mar agreste e malicioso, mas já não mais assustador.

Termino este manuscrito sob os luminares de Outubro. Nada no mundo é capaz de me deter. Eu tenho comigo a força do querer, o motivo que me traz motivação. As velas de minha caravela estão içadas e, ao leme, eu já manobro à barlavento. O farol de outubro aponta o destino de um novo tempo.

"Navegar é preciso..."

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O FERMENTO DA POESIA

Escrevo o meu verso com um pé quebrado. Tresloucado estou na madrugada, insone, e a vida me parece um tango figurado. Não almejo algo que eu ja não  possa ter: agua para beber e um pouco de erva e sal. Nestes dias de loucura eu tenho me alimentado pouco.                                                                

O fermento da poesia é o meu único sustento. Nada me traz mais alegria do que têla comigo, enraizada no coração. Estou vivendo em outra dimensão, longe de mim e das coisas antigas da minha vida, mergulhado na escuridão da alma. Sobrevivo do amor que me restou.



Sou um sobrevivente de mim mesmo. Reconstruído em bronze, metal ainda fervilhante. A minha mente é a minha fortaleza, luz da certeza num vale encoberto por neblina, de onde descanso para ressurgir. O tempo de cada um é marcado em um relógio Suiço.

Aos que me querem bem eu digo: estou bem. Além disso, apenas a poesia tem o meu consentimento. Escrevo como penso, como sinto, e o meu paraíso é parte de um soneto. Nada mais lamento, aprendo sim a caminhar outra vez. Feliz é quem pode me corresponder.

O fermento da poesia é o meu viver.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O Legado do Tempo

O legado que tenho é o tempo. Um sentimento tardio, porém intenso. A curvatura do universo me ensina que tudo é relativo, e Einstein em sua alucinada teoria assim já o profetizou. Mas o que é o tempo? Um  relógio que gira sempre na mesma direção? Um simples pedaço de uma dimensão que ainda não compreendemos? A passagem do tempo é inexorável.

Eu olho e vejo tudo o que passou. Estou preso ao instante atual e nada do que foi e nada do que virá está agora em minhas mãos. Me sinto uma folha seca em meio a uma tempestade colossal repleta de raios e trovões. Eu vejo a vida cruzando por meus olhos numa constante, num rio de fatos cotidianos e comuns, alguns em riso, outros em pranto, e vejo que é o tempo o que afinal nos aprisiona. 

O destino é limitado pelo tempo, e a dimensão do tempo, do espaço-tempo que nos cerca, tudo talvez seja apenas uma simples impressão. O relógio que vejo correndo para frente pode estar voltando, e nós, seres humanos, talvez estejamos enredados no conceito de um teorema sem saída. Afinal foi a Física Quântica que evolucionou o mundo em que vivemos.

Eu caminho para algo que desconheço.  



terça-feira, 25 de junho de 2013

O CRIME E O CASTIGO

Resignado estou. Apaixonado estive em teus braços, explosão de luz no universo de uma noite negra. Estou como um cometa desgovernado, lançado para o longe da tua orbita, esfacelado, num destino traçado para a colisão.

Tu fostes esta paixão acolhedora, arrebatadora dos destinos e sorrisos, um ponto de infinito no espaço sideral. Nós dois juntos fomos um sol uníssono, queimando o combustível das estrelas. Na tua boca eu bebi da mais intensa e alvissareira estrela.

Tu sabes disso. Sempre soube. Ouve agora o riso do meu coração entristecido, sabedor de que nada mais vai ser como será. Está vencido o porto do infinito, o ponto de onde poderia se voltar. Agora o destino vai nos desintegrar.

Eu choro e o meu pranto é seco. lamento tudo o que eu causei em ti, e de mim, apenas o que eu não vivi. Vai ser assim, e o passar dos dias vai ensinar-te como foi o nosso fim: um recomeço em nova estrada e novo rumo.

Talvez um dia a gente possa olhar pra trás e ver o que hoje aqui ficou. Um manto de amor e de estrelas. Uma esteira de prata no luar. Um pedaço do que poderia ter sido. Resignado estou, sem mais no coração para te dar.

domingo, 23 de junho de 2013

Verso Crioulo


Verso crioulo tu brotas
Das entranhas da minha alma,
É rima que em mim revela
O perfil de um índio taura,
É xucro na minha voz
Embretada nas cidades,
Mas trazes cheiro de campo
Sem perder a identidade.

O tempo, senhor dos ventos,
Te castiga e te arrocina,
Tentando talvez, por certo,
Embretar a tua rebeldia,
Mas nem ele eu te garanto,
Meu parceiro de ideal,
Terá os tentos pra trançar
As loncas pra o teu final.

Este falso modernismo
Que alguns tentam te imprimir
É pouco pra que a tua chama
venha um dia se extinguir,
Virão outros, com certeza,
E os domarás como potros,
Pois tens a força dos rios
Nas cheias de fim agosto.

Recostado a um velho umbu
Num silêncio de oração,
Aceno a Deus uma preçe
Nesta xucra devoção,
Em meu nome peço a ele
Que a tua essência se conserve
E o Rio Grande te resguarde
Num galpão de puro cerne.

Peço também ao minuano,
velho ventito parceiro,
que te aponte sempre o rumo
Dos verdadeiros luzeiros,
E que enquanto um fogão campeiro
Nos pagos do sul arder,
            Que os declamadores desta terra
            Nunca venham te perder.

( "Verso Crioulo", de Alex Brondani)